Publicado por Redação em Geral | 02/12/2016 às 16:02:07

O samba da nossa terra


O porto-alegrense Lupicínio Rodrigues (1914-1974) é, no país,o expoente maior do samba de "dor de cotovelo". Foto: Reprodução / Agencia RBS


O Rio Grande do Sul, mesmo sem estar no eixo central onde o gênero musical se formou, contribuiu para consolidá-lo na memória afetiva e no coração dos brasileiros ao longo dos últimos cem anos

O samba, que comemora neste ano o seu simbólico centenário (na verdade, do registro de Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida, consagrada como a canção pioneira do gênero), tornou-se mundialmente conhecido como o mais brasileiro dos ritmos musicais. O gênero se tonaria um símbolo de "brasilidade", uma força hegemônica na construção da identidade nacional; a relação no país, porém, não é vertical, convivendo a "identidade nacional" com identidades locais, formando uma ampla diversidade cultural.

Os locais percorridos pelo samba, seja em Porto Alegre ou no Interior, constituem um circuito relevante em nossa cultura. São escolas de samba, clubes sociais negros, bares ou, ainda, parques e espaços públicos onde acontecem rodas de samba, ensaios e apresentações diversas. Tudo isso consolida um sistema próprio, em que compositores, cantores e público convivem com obras nem sempre visíveis ao grande público.

Posicionado numa zona híbrida, ladeado por dois países (Uruguai e Argentina), o Rio Grande do Sul bebeu das interferências com seus vizinhos, e influenciou-os também. O samba feito a partir do Estado é decisivo, por exemplo, para fundar gêneros como o suingue e possui pelo menos uma vertente peculiar, que é o hino de tribos carnavalescas.

Manifestação existente desde a década de 1940, as tribos apresentam características semelhantes e outras distintas às das escolas de samba. Já foram maioria em Porto Alegre, restando hoje apenas duas – Os Comanches e Guaianazes. A sua canção, chamada de hino, a cada ano representa um enredo diferente, invariavelmente de temática indígena, porém sem estar necessariamente vinculado a uma etnia ou nacionalidade. O seu canto é pungente, melancólico, apresentando também traços de indignação e resistência. Mitos e lendas da literatura ameríndia são valorizados em seu enredo e seu canto.

Outro gênero que merece destaque por sua originalidade, permanência e influência no cenário brasileiro é o suingue – também chamado de samba-rock ou balanço pelo país, com nuanças. Seus artistas centrifugaram a experiências das escolas de samba e das tribos com o rock e ritmos norte-americanos, caribenhos e dos países fronteiriços. O Grupo Pau-Brasil, formado por Bedeu, Cy, Nego Luis, Alexandre, Leco e Leleco Telles, tornou-se referência nacional na década de 1970.

No cancioneiro do samba gaúcho, a temática do amor é proeminente. A expressão maior da "dor-de-cotovelo" na música brasileira, do ex-amor traído ou irrealizado, é o porto-alegrense Lupicínio Rodrigues (1914-1974). Compôs canções que se tornaram icônicas:

"Você sabe o que é ter um amor, meu senhor / Ter loucura por uma mulher / E depois encontrar esse amor, meu senhor / Nos braços de um tipo qualquer" (Nervos de aço).

Os amores difíceis se mantêm como tópico constante na poética de compositores posteriores a Lupicínio, como Wilson Ney – possivelmente o maior sambista em atividade no Estado. Em suas canções, entre paixões não realizadas, está presente também o amor sensual, que envolve profundamente e é frontal:

"Quem vai beijar tua boca / Deitar-te na cama / Milhares de vezes dizer que te ama / E teu corpo ardente de amor sufocar" (Lá vem você).

Assim como na obra de Lupicínio, existe uma predominância da narrativa dialógica.

A exaltação à mulher, e particularmente à mulher negra, aparece com frequência. Em Negra Ângela, parceria do gaúcho Alexandre com o carioca Serginho Meriti, a negritude é destacada:

"Bela negra, negritude que fascina / Senhora, menina / Menina senhora me descontrolou".

Em Índia negra, de Bedeu (1946-1999), misturam-se diversas representações:

"Negra guerreira / Elegante gazela / Linda bailarina, princesa negra donzela".

Além do amor e da mulher, os temas mais recorrentes são análogos ao tempo e ao espaço em que se dá a vivência festiva: a noite, o fim de semana, o samba, o Carnaval. O cotidiano de trabalho, ou a crítica social, poucas vezes aparecem, tampouco a "malandragem". Nesse universo mais festivo, a relação com a "musa" também se transforma: o amor é representado de maneira mais leve, alegre, sobretudo nas canções ligadas ao suingue.

O samba e a noite são elementos importantes na obra de artistas como Túlio Piva (1915-1993). Suas canções Pandeiro de prata e Tem que ter mulata são tipos significativos da temática. Em Gente da noite, a vida boêmia é exaltada:

"Gente que canta e que chora / Chora de saudade / Quando a noite vai embora".

O fazer samba está presente também na poética de Nêgo Izolino, outro expoente do gênero, em atividade:

"Samba é / Um beija-flor colhendo o pólen de lindas flores" (Cantar samba é).

Já o Carnaval, além de tema habitual nos sambas-enredos, tem canções que se tornaram antológicas, como Dou a fantasia, de Wilson Ney:

"Vem sambar / Nessas três noites de folia /Se há problemas meu amor / Pode vir que eu dou a fantasia".

Mesmo sem estar no eixo central onde o samba se formou, as contribuições dos artistas gaúchos para o gênero foram bastante significativas e ajudaram a consolidá-lo na memória afetiva e no coração dos brasileiros ao longo dos últimos cem anos. 

Fonte: Zero hora


Tags: centenario


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