Publicado por Redação em Carnaval de São Paulo | 24/11/2016 às 15:39:26

Falta alma nos desfiles das escolas de samba, avalia carnavalesco


Fábio Borges. Foto: Reprodução


“Parei, definitivamente”.

Fábio Borges, um dos bons profissionais do Carnaval brasileiro, está fora dos desfiles.

Os motivos? Ele conta em entrevista exclusiva ao SRzd Carnaval SP: “São vários os aspectos que me fizeram tomar essa decisão. O primeiro deles, a saudade de casa: o Rio de Janeiro. Depois, o desejo de fazer outras coisas. Produzir, sem ter que dar satisfações, fazer arte, que é o que me completa como artista”.

Responsável pelo desfile da Pérola Negra este ano, Borges é goiano, da cidade de Nova Aurora. É artista plástico e respeitado no segmento expondo pinturas e obras de arte. Tornou-se, ao longo de mais de vinte e seis anos atuando como carnavalesco, tanto no Rio, quanto em São Paulo, igualmente reconhecido. Seu primeiro projeto no Carnaval foi em 1990, quando ao lado de Ernesto Nascimento, assinou o enredo: “E deu a louca no barroco”, na Estação Primeira de Mangueira.

“Minha chegada no Carnaval foi fruto do meu desejo, um artista plástico que queria ver um trabalho seu na Marquês de Sapucaí”. Naquela oportunidade a verde e rosa teve inúmeros problemas com alegorias, comprometendo sua evolução e sua harmonia, fazendo com que ficasse num modesto oitavo lugar.

Uma breve pausa e Fábio desembarcou num desafio: a Leão de Nova Iguaçu. Por lá, quatro temporadas, alternando classificações intermediárias em divisões inferiores. Em 1996, com o tema: “Anarquistas sim, mas nem todos”, colocou os Acadêmicos do Salgueiro entre as campeãs do concurso carioca. Nova parada e o embarque na ponte aérea, rumo à São Paulo. Porém, a estreia em solo paulista não foi das melhores:

“Desenvolvi o enredo “Cara e coroa, as duas faces de um Império”, pela Unidos do Peruche. Foi uma tragédia! Por falta de recursos o projeto não foi concluído e foi para a Avenida inacabado, resultado, caímos para o Acesso”, lamenta.

Assim como em outros momentos de sua relação com o Carnaval, Fábio Borges resolveu, novamente, se afastar. Um movimento que ele considera importante, e que fez sempre que sentiu a impossibilidade de desenvolver com liberdade suas ideias. Sobre essa percepção pessoal, ele refletiu:

“Não me vejo como um “carnavalesco”, sou um artista, que gosta de criar. E prezo pela liberdade, sem ela, eu trabalho mal, eu preciso estar livre”. E foi com a sensação de liberdade ampla para criar, que ele viveu aquela que considera sua melhor fase no Carnaval paulistano. O período que se inicia em 2003, na Sociedade Rosas de Ouro:

“Apesar da escola não viver um momento financeiramente favorável, por conta de um bloqueio de verba, tive liberdade total para criar e executar da maneira que queria. O mais importante nesse universo, não é o dinheiro, e sim, a criatividade. É preciso que os enredos mostrem algum sentimento, não pode ser só algo físico, tem que ter algo espiritual envolvido também. Nada adianta a riqueza, se não houver alma. Desfiles assim, estão fadados ao esquecimento”. Na azul e rosa, Borges ficou por quatro anos, e revela seu momento preferido:

“Mar de Rosas, em 2005, é muito especial e aclamado, mas prefiro “A Diáspora africana. Um crime contra a raça humana”. Visualmente não foi bonito, uma vez que a história não era bonita, mas o desfile transmitiu exatamente a mensagem que eu queria”.

Nessa jornada Borges ainda passou, em 2009, pela Acadêmicos do Tucuruvi, e Unidos de Vila Maria, nos anos de 2010 e 2011. Outro recesso e o último retorno, em 2015, para a Pérola Negra. Nessa ocasião, ele relata quais eram suas perspectivas para o ciclo que se iniciava:

“Eu tinha uma impressão de melhora dos processos que envolvem o Carnaval de São Paulo quando voltei para o Pérola Negra, estava confiante, principalmente com a possibilidade da “Fábrica do Samba”. Infelizmente, muita coisa não havia evoluído, e não evoluiu”.

Enquanto falava ao conceder essa entrevista, ao fundo, foi possível ouvir o som dos pássaros. Fábio voltou para o Rio e mora na Ilha de Paquetá, lugar que considera um verdadeiro paraíso, um refúgio.

Do alto de sua habitual serenidade, não se furtou em analisar, com mais profundidade, como enxerga determinados fatores que integram a complexa engrenagem do Carnaval:

“Visualmente os desfiles cresceram muito, por outro lado, com as tais comissões de Carnaval, as pessoas pesquisam e escrevem enredo para várias escolas, e isso eu não gosto, pois acho que o enredo é o ponto principal de um projeto de desfile. A maioria dos carnavalescos não escreve mais, não pesquisa e não desenha, e isso faz com que tudo fique muito repetitivo”, e complementa: “Apesar da evolução estética, está faltando alma”, decreta ao virar uma importante página de sua carreira artística, absolutamente certo daquilo que pretende para os próximos anos:

“Não está nos meu planos voltar para o Carnaval, apesar de todo o carinho que tenho pelas escolas onde passei e pelos sambistas da cidade de São Paulo. Agora, produzir arte é meu foco, e o desenvolvimento destes novos projetos serão uma forma de retribuir, com arte, tudo que recebi nesses anos todos. Estou produzindo um trabalho específico para o Rio, e outro para SP, que devo apresentar no próximo ano”, concluiu Fábio Borges.

Fonte: Sidney Rezende (SRzd)
 


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