Publicado por Redação em Geral | 21/11/2016 às 13:48:48


Acordes, poesia e resistência: o samba comemora cem anos



Pixinguinha, João da Bahiana e Donga: trio fugia da repressão na casa de Tia Ciata.. Crédito: reprodução


Ritmo vindo da África ganhou as ruas e atingiu o sucesso no Brasil. Historiadores e músicos consideram o dia 27 de novembro de 1916, data de registro de 'Pelo Telefone', como marco de fundação do gênero musical.

'O chefe da folia
Pelo telefone manda me avisar
Que com alegria
Não se questione para se brincar'


Já faz cem anos. Foi sem fazer alarde que o compositor Ernesto Maria dos Santos, o Donga, cruzou as portas da Biblioteca Nacional, no Rio, para registrar a música 'Pelo telefone' como 'samba' (confira a partitura). Pode parecer pouco, mas num tempo em que os ritmos africanos eram vistos como 'música barata', e reprimidos com violência, o registro da música foi sem dúvida um ato de coragem.

O pesquisador de música brasileira, Ricardo Cravo Albin, lembra que pela primeira vez, o samba e a música erudita estavam lado a lado.

'Como tava fazendo razoável sucesso, vamos defender essa música para que ninguém roube. Aí foram a um lugar que só os compositores eruditos tinham acesso, a Biblioteca Nacional, para registrar. 'Ah, mas música popular, precisa registar?' 'Não, nós queremos porque talvez sejamos ameaçados...' E sabiam muito bem que samba era como passarinho, de quem pegar primeiro', explica.

'Ai, ai, ai
É deixar mágoas pra trás, ó rapaz
Ai, ai, ai
Fica triste se és capaz e verás'


O primeiro samba registrado da história seria o grande sucesso do carnaval de 1917. A letra simples - e até inocente - ganharia várias paródias e versões naquele ano. Mas o sucesso dividiria as manchetes dos jornais com uma polêmica: afinal, quem compôs 'Pelo Telefone'? O historiador Luiz Antonio Simas lembra que o registro feito por Donga contou com uma certa dose de malandragem do sambista.

'Todos os testemunhos dão conta de que o 'Pelo Telefone' foi uma criação coletiva. O que acontece ali - e esse mérito não podemos tirar do Donga - é a percepção de que o samba estava entrando em uma fase em que seria consumido. O Donga tem essa percepção e registra o 'Pelo Telefone' sozinho. Mas a questão de compra e venda de sambas, depois, passaria a ser muito comum', ressalta.

'Batuque na cozinha
Sinhá não quer
Por causa do batuque
Eu queimei meu pé...'


Era num terreiro na casa da baiana Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, que a nata da primeira geração de sambistas se encontrava para fazer seu batuque, louvar os orixás e dançar o arrasta pé da época. Mãe de santo e quituteira das boas, ela trabalhava como curandeira para o então presidente da República, Wenceslau Brás.

Isso fazia com que a repressão policial passasse longe da sua casa, na Praça XI, no Centro do Rio. A pesquisadora Gracy Moreira, bisneta de Tia Ciata, fala sobre alguns nomes que começaram a fazer samba naquele terreiro.

'Alguns desconhecidos como Donga, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres - adolescentes - treinavam samba na casa dela. E se a polícia batesse na porta dela, ela dizia logo 'aqui não se toca samba. Só se toca chorinho', diz.

O sucesso da região da Praça XI era tão grande nos carnavais que o compositor Heitor dos Prazeres passou a defini-la como 'Pequena África', devido ao número de pessoas que ia até lá a procura de ritmos e tradições religiosas dos seus ancestrais. Era entre um ritual sagrado e outro profano que o samba da época era moldado, ainda com uma cara distante da que vemos hoje.

O ritmo tinha marcações de instrumentos de percussão africana e preservava as raízes de ritmos considerados sagrados, como o lundu, o jongo e o maxixe. Um dos artistas que mais regravou músicas da primeira geração de sambistas, Martinho da Vila, fala com bom humor sobre a imagem que os músicos tinham na época.

'A conclusão a que eu chego é que a tia Ciata foi de suma importância na resistência do samba. Os sambistas eram muto discriminados, perseguidos. Se uma moça de família tradicional começasse a namorar um rapaz que tocasse violão naquela época, fazia-se logo um conselho familiar e tratavam de mandar ela para outro lugar, porque ela estava perdida', de diverte.

Foi nessa cadência, entre uma polêmica e outra, que o samba foi ganhando as ruas e recebendo, por exemplo, a bossa e o refinamento do maestro Pixinguinha.

Mas é claro que o samba, ainda que maxixado, precisava do seu primeiro pop-star. E ele gostava de uma polêmica. José Barbosa da Silva, o Sinhô, ostentava o título de Rei do Samba, e reivindicou até o fim da vida a autoria de 'Pelo Telefone'. Mas nem precisava tanta polêmica. A obra de Sinhô continua viva nas rodas de samba que se espalham pelas ruas e em gravações de artistas consagrados.

'Jura, jura, jura
pelo Senhor
Jura pela imagem
da Santa Cruz do Redentor
pra ter valor a tua jura
jura, jura'


E o reinado dele durou alguns bons anos, até que uma turma de músicos do Estácio, na Zona Norte do Rio, deu ao samba a sua levada definitiva. O carnaval ganharia as escolas de samba e nunca mais sairia do calendário cultural brasileiro.

'de coração
para que um dia
eu possa dar-te o amor
sem mais pensar na ilusão
Daí então dar-te eu irei...'


Fonte: CBN


Tags: centenario


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